27 Maio 2009




Esta música acompanha a minha vida desde uma idade demasiado tenra e ecoa na minha cabeça todo e cada dia… com saudades vossas…

Ouvimo-la…
Cantámo-la…
Tocámo-la…
Vezes sem conta.

Depois da vossa ausência era incapaz de ouvi-la sem sentir um nó apertado na garganta… com saudades vossas…

Nunca tive dúvidas sobre a falta que me fizeram, fazem e sempre farão, mas durante muitos anos sempre encarei a vossa ausência como algo natural. Como o destino.
Mas apesar de até acreditar no destino, tenho muito mais fé no livre arbítrio que temos sobre as nossas vidas.
E por isso decidi chegar-vos para junto de mim. Deve ter sido a coisa mais acertada, feliz e gratificante que fiz na minha vida.
Não foi uma tarefa difícil. Vocês acercaram-se de mim com vontade e com a maior das naturalidades.

…Foi então que percebi que nunca tinham estado verdadeiramente ausentes.

Nem estão. Estão tão perto de mim!
Apareceram para fazer a festa (como só nós sabemos fazer, não é?).
Correram para me levantar do chão quando fiquei de rastos.

E não tenham dúvidas, nunca, que farei sempre o mesmo por vocês todos. Adoro-vos.

Agora posso ouvir uma das mais belas canções de sempre, que é pouco alegre, que mesmo muito de nós… com um sorrido nos lábios.

Porque sei que estão aqui!

23 Maio 2009

Despedida

Avô,

Chegou agora a hora de descansares. E sabemos que já estavas muito cansado...

Estavas cansado de lutar. Mas mesmo assim fizeste-o até ao fim, com toda a tua força e com toda a tua garra, e ganhaste todas as batalhas! Nem esta última tu perdeste! Simplesmente, ignoraste, e bem, um inimigo que é traiçoeiro, que não tem rosto, que nos ataca em silêncio e que, pela calada, rapidamente se transforma, de uma formiga num monstruoso gigante!

Mas tu, Avô, mesmo assim, nunca lhe deste tréguas!

Por isso agora vais descansar e ficar em paz.
Porque nesta guerra cheia de batalhas vencidas por ti, e que não é de igual para igual, esta guerra tu venceste!

E todos temos o maior orgulho em ti por isso.

Vou ter muitas saudades tuas.
E vou sempre lembrar-me do orgulho que tenho em ser tua neta e da forma como me educaste.

Somos fortes!
Lutamos por aquilo em que acreditamos e não baixamos os braços!
E, se cairmos, levantamo-nos outra vez e outra vez e outra vez! Sempre!

Além da força, vou recordar-te sempre como o meu Avôzinho que me levava a ver os coelhinhos e a apanhar florinhas para dar à Mãe e à Avó.

Adeus, Avô.
Se não fosses tu nunca tinha visto a lua mais maravilhosa que já vi na minha vida.

25 Janeiro 2009

Tenho nojo do «Não se pode fazer nada...».

Quero partir todos os dentes de todos os que me dizem que isto «faz parte da vida».

...«Tens que ser forte!»... Dá-me náuseas.

«Seguir em frente»... (?!) Mas o que é isso?! Mas que porcaria é essa quando o monstro está em todo o nosso redor?
...Não há «frente»! Dá para perceber?

Nem sequer suporto que me toquem para me dizerem que tudo isto vai passar. Porque vai... mas é por cima de nós!
Porque neste momento, só me apetece partir tudo à minha volta e destruir esta injustiça para onde te arrastaram e de onde não te posso tirar e onde nos afundamos e só nos é permitido ficar a assistir.
Já não sei se odeio mais a ciência ou a fé.
Mas é o quê? O Karma? Mas quê? Já não chega?
Porque nada nos vale quando chega a hora da verdade, da mesma forma ridícula que um milionário diz que o dinheiro não tem valor.
Só queria desatar este nó que tenho na garganta para poder avisar toda a gente sobre o terror que aparece nas noites serenas em que sofres. Em que se sofre.


Não podemos suportar isto, minha flor, não é?
Não queremos lutar por isto.
Não aguentamos aquele verde nos nossos pesadelos.
Não queremos ser atropeladas quando nem atravessámos a estrada.

25 Setembro 2008

Let's Get Married!!!


Numa época em que desde há muito o casamento é visto como um passo que só os loucos dão... Eu assumo a minha loucura, porque:

- Amar é isso mesmo: entrega incondicional e maioritariamente irracional;

- O «Até que a morte nos separe» pode logicamente não ser uma garantia, mas é uma convicção forte para quem o assume;

- Quem ama e é amado não tem medo de falhar... mesmo que venha a fazê-lo;

- É bom celebrar e partilhar com as pessoas importantes da nossa vida um sentimento tão importante;

- Acreditem ou não (chamem-me fútil), mas o vestido branco tem "qualquer coisa";

- O amor é maravilhoso e afortunados são os seres que o respiram e transpiram com todo o seu ser!





P.S. - Amo-te...
(para recordar a nossa viagem de regresso...)

04 Julho 2008

Boa, Kat! ;)

Tenho sempre dificuldade em rasgar seda relativamente àquilo que é meu.
O que se segue não é meu (baralhados?), mas enche-me de orgulho.

O texto abaixo é da autoria da minha sobrinha. Quando o lerem vão perceber porquê este histerismo de tia babada... É que escrever assim (forma e conteúdo) com 14 anos... é dose!

Muitos nem aos 30... nem nunca!

Boa, Kat! ;)



«Pode-se dizer que as minhas duas bandas favoritas são os Breaking Benjamin e os Bullet For My Valentine. Óbvio que não me limito a estas duas bandas (óbivo!). Gosto de todos os tipos de Metal e Rock, de bandas desde Metallica a The Used, passando por Porcelain and The Tramps, More Than a Thousand, Nirvana, Iron Maiden, Alter Brigde e até Dope. Também gosto do Frank Sinatra (New York rules!) e do Vivaldi (face it, o gajo era um génio). Era e Children of Bodom também se encontram actualmente no meu mp3. Contúdo, adoro a voz do Jared Leto e a Doença Industrial dos Dire Straits. Os riffs de AC/DC são uma constante no meus dias e a voz do Brent Smith com os riffs do Jasin Todd também. Mas se somos todos gays, porquê que aquele homem vendeu o mundo e os maus amigos vão para um lago de fogo, han Kurt? O James manda, e nós obedecemos ao nosso mestre como marionetas. O Jeff matou o John e os Bullet surgiram. Podemos parecer perfeitos, mas a Alaina afirma ver-nos transparentes. E ser um torrão de açúcar tem que se lhe diga! Podemos ser os reis do Mundo por fodermos como estrelas. A cidade dorme e eu continuo sem ser nada. Mas tenho os meus amigos, alguns que mal conheço, e já tivemos momentos que não troco pelo mundo. E continuo a concordar com os Pink Floyd quando dizem que não precisamos de educação e que os professores deveriam de deixar os alunos em paz. Ou até com o Jim Morrison quando afirma que quando se é um estranho, as caras parecem-nos estranhas. A verdade é que se o procurarmos, nunca o encontraremos... E quando achamos que poderiamos ter dito mais, mas as nossas palavras não tinham força, devemos apenas gastar o nosso tempo com quem tinha as mãos a termer. Porque a vida não é a preto e branco, mas a azul e amarelo, pela musica do Bert McCracken. E sim, nem tudo o que brilha é ouro, como o Robert Plant fez questão de reafirmar, com a ajuda do Jimmy Page. Porquê que quando batemos no chão e nos tiram tudo, pedimos mais? Quando não há uma saida fácil, desistir não pode estar errado, ou pode? Só sei que todos temos um dia em que havemos de gritar as 4 palavras que os Bullet For My Valentine celebrizaram. De qualquer das maneiras, sou como os Motörhead: apesar de não o quererem, nasceram para criar inferno em plena terra. Mas temos de estar preparados para tudo, venha o que vier, não é Corey Taylor? Quando o escuro nos consome, só temos é de arder. Arder Brilhantemente. Porque iremos encontrar o nosso sitio atrás do Sol. E acho que todos deveriamos querer a salvação da Rainha, como proclamaram os Sex Pistols. Ou então, gritar a plenos pulmões "No Future". Até porque, segundo o meu querido Ben Burnley, flutuamos sobre a Baía da Superficialidade. E enquanto um inteligente pensa, outro herói morre. Mas tudo o que temos de fazer/podemos fazer é pedir à chuva que se vá embora porque o mundo inteiro está à espera do Sol.»

01 Julho 2008

Yes MASTER!!!

Quase um mês depois...
É quando consigo tomar fôlego para contar como foi.

Sempre achei aquela coisa do "EU VOU" ou "EU FUI" do Rock in Rio um bocado a puxar para o foleiro.

Mas hoje, com todo o orgulho e felicidade, digo: "EU FUI". Não pelo Rock in Rio em si, mas pelo privilégio de ter vivido um dos melhores/maiores concertos de toda a minha vida, proporcionado por uma banda composta por senhores que têm idade para ser meus pais.

Os enormes METALLICA deram um concerto que ainda hoje tenho dificuldades em adjectivar. Posso, no entanto, adiantar que o que mais se ouvia nas bocas do público era: "BRUTAL!!!".

...e foi mesmo!

Teve a parte das recordações da adolescência (o pontentíssimo Enter Sandman ou Nothing Else Matters); a parte das velhinhas, a "old shit", parafraseando Hetfield (...estilo Seek and Destroy, que é de 1983... Ah pois é!... ou Master of Puppets, de 1985)... E, sobretudo, teve a parte em que estes senhores continuam a demonstrar que se mantêm com umas "unhas" para tocar e uma força para estar em palco que justificam plenamente o facto de continuarem a ser adorados por várias gerações, como a da minha sobrinha de 15 anos que foi comigo.

Quem? Quem não obedece a estes MASTERS???



05 Junho 2008

«Campainhaaaaaas!!! Oiço campainhaaaas!!!»

Há determinadas coisas que fazem parte do nosso quotidiano de uma forma tão incrustada que já nem damos por elas.
…a não ser quando… ELAS MUDAM!!!!! (SOCOOOOOORRRRRRRRRRROOOOOOOO!!!!!!)

Estou numa casa nova, linda, com a companhia também mais linda que podia ter!
Tudo é um sonho!
Acontece que, no meio de todo este onirismo, vislumbram-se também rasgos de pesadelo. Relativo, mas pesadelo.

Por exemplo, quando acordamos de manhã e temos que nos despachar em 20 minutos para sair para o trabalho, quando o que temos para fazer demora pelo menos uma hora e, a acrescer a isto, não sabemos bem onde guardámos a roupa interior.

Outra: as facas são novas e cortam demasiado bem. Desta forma, a primeira refeição a sério, a dois, na casa nova resultou num pitéu delicioso, mas com um sabor amargo das mãos esquartejadas.
Depois, como não há tempo para andar a calçar e descalçar luvas porque temos dezenas de manuais de instruções para ler de todos os pequenos e grandes electrodomésticos, o verniz fica uma vergonha. E quando, ao final da noite, o vamos tirar e a acetona entra pelos golpes infligidos pelas novas e bonitas facas, também a nova casa fica a conhecer o rol de palavrões que temos debaixo da língua.


E os apitos e campainhas e barulhinhos novos???!

O frigorífico apita. A máquina da loiça apita (e já avariou sem apitar). A máquina da roupa apita. A fritadeira apita.
O despertador é novo. Às 7 da manhã não associo automaticamente aquela campainha ao facto de ter de me levantar.
O telefone faz diversos apititos diferenciados que ainda não entendi.
A campainha da porta faz um granel do caraças…

Adoro a casa nova. Amo a companhia.
… E curto bué as CAMPAINHAAAAAAAASSSSSSSSSS :D

10 Abril 2008

Para palhaço estou cá eu

Hugo Chávez reinventou uma nova técnica para calar as pessoas.
Simples: consiste em fazer coisas tão estúpidas, tão estúpidas, que qualquer um fica sem palavras; boquiaberto; speechless. Trata-se de uma nova forma de censura, muito peculiar, um pouco (mas não muito) mais subtil que o «¿Por qué no te callas?» que lhe foi dedicado por D. Juan Carlos (desculpem colocar o nome dos dois dentro do mesmo parágrafo), mas, como é seu apanágio, muito estúúúpida.

Comigo resulta: ouvi a notícia na rádio, quando ia no carro e dei por mim a olhar pasmada para o próprio aparelho. Só consegui dizer coisas sem conexão do tipo: “não posso…”, “…este gajo…”. E depois deu-me para rir…
A notícia era que Hugo Chávez havia retirado do ar a série The Simpsons por considerar que esta representava um mau exemplo para as crianças.
Eu própria, neste blog, já cortei nos Simpsons, mas daí a considerar a família amarela uma má influência, sobretudo quando se tem um chefe de estado como o Huginho, ainda cabe uma grande distância.


Mas esta atitude pode ser encarada de outra forma.
O presidente venezuelano, como sabemos, gosta de manter os diversos sectores de actividade do país sob controlo. Assim, esta seria uma forma de monopolizar também o sector da comédia.
E até quase que sou capaz de apostar no que lhe passou pela cabeça no momento imediatamente anterior ao que, com berro lá do seu gabinete, deu ordens para calar Homer, Marge e os filhos: «¿Qué!? Los Simpsons? Amarillitos de mierda! Para payaso yo soy bastante!»

Falta dizer que os Simpsons foram substituídos, no mesmo horário, pela série Marés Vivas. Muito melhor, convenhamos.

02 Abril 2008

«Beautiful girl... stay with me»

Este é um daqueles temas sobre os quais nunca me ocorreu escrever…
Porque é tão intrínseco, tão adquirido… é como escrever sobre o facto de ter pele, ou de ter olhos…
Ou talvez não seja bem assim. Prova disso é que vou mesmo escrever sobre ele. Ou melhor; sobre ELA.

Sinto que o cordão umbilical nunca se corta. O meu, pelo menos, continua aqui, bem forte. Porque eu quero. Porque nós queremos.
Não consigo escrever muito sobre o ser maravilhoso que é a minha Mãe, porque tudo o que sinto, que vejo, é simplesmente indizível.

Também não consigo imaginar um outro ser com as suas características: toda a força, com todo o carinho; toda a coragem, com toda a ternura; todo o amor, com toda a firmeza.


Estou sempre sempre sempre contigo!!!
Fica sempre comigo...



20 Março 2008

O marketeer

Este post não representa uma crítica nem uma sátira.

Queria apenas partilhar a minha teoria sobre o sucesso do Tony Carreira, assinalando assim os seus 20 de carreira.
Isto porque já ouvi muitas e nenhuma me convence…

Argumentos mais comuns para o sucesso da carreira do Carreira:
- Humildade
- Voz
- Melodias
- Beleza
- … entre outros que, desculpem, mas não me convencem.

Mas o Tony Carreira tem uma virtude de se lhe tirar o chapéu! É um excelente marketeer! E com todo o mérito!
Este homem de origens humildes e sem grande instrução (pelo menos que se saiba) conseguiu pôr em prática algumas das regras de ouro do marketing actual: criou um produto meticulosamente segmentado para um nicho de mercado; para dar resposta a uma necessidade muito específica do público que definiu como alvo.

Ou seja, foi criado um produto - que é o próprio do Tony -, em que as principais características são: humildade, amabilidade, beleza (esta parte é questionável, mas já deu para perceber que ele conseguiu adaptar a sua imagem aos ideiais de beleza masculina das mulheres de meia idade), romantismo… depois aquela vozinha de “sim, querida, eu ofereço-te uma rosinha”… e depois mais aquelas letras de “pobre de mim que já sofri tanto, que agora até me contento com uma gordinha como tu, por exemplo, desde que me trate bem”.

Depois, para se colocar um produto no mercado com algum sucesso é necessário fazer crer ao consumidor que ele tem a necessidade de adquirir esse produto.
Nesta parte o Tony não tem grande mérito porque não precisou de fazer nada…
Recordemo-nos que a “fã modelo”, dada a sua idade, teve uma educação predominantemente salazarista, em que, só para citar um exemplo, as moçoilas iam para a escola aprender a cozinhar e a bordar. Por seu lado, aos rapazes, os homens que hoje são os maridos da “fã modelo”, foi-lhes incutido que a mulher está em casa à sua espera com o jantar pronto na mesa a tempo e horas, com um sorriso nos lábios, do tipo… “Olá, queridinho! Não fiz a ponta d’um corno o dia todo, por isso ‘tou aqui cheia de pachorra para te aturar”.

Acontece que FELIZMENTE os tempos mudaram, as mulheres começaram a fartar-se de ser tratadas como meras empregadas, e homens há que não se adaptaram a isso, passando a ser rotulados de brutos.

E é aqui que entra o Tony!!! Ele VALORIZA a mulher!!! Valoriza-a para além das suas performances como dona de casa! Mesmo que seja num tom um bocado a atirar para o piroso, mas isso também já depende do gosto de cada um. Por isso será sempre adorado por estas senhoras com défices ao nível do afecto, da auto-estima, etc.
Parabéns de qualquer forma ao Tony Carreira! Tudo o que conquistou não podia ser mais merecido!


***

Queria só deixar uma nota de rodapé: os tempos evoluem, mas nem tanto as mentalidades.
Muitos homens bem mais novos do que os maridos das fãs do Tony Carreira continuam com a mesma mentalidade. E muitas mulheres também. É triste… Sobretudo porque têm menos desculpa que os que eram obrigados a levar com estuchas machistas-salazaristas na escola.

Fica para um próximo post...

06 Março 2008

Totós e Valentões

Uma psicóloga disse-me uma vez que, frequentemente, temos desilusões porque criamos expectativas demasiado elevadas.
Ou seja… Grosso modo, a culpa é de quem se lixa. A culpa é de quem osou idealizar.
De um modo um pouco menos superficial, poder-se-á dizer que essas expectativas não surgem sempre por “obra e graça do espírito santo”. Há também casos, é sabido, em que somos induzidos a construir cenários futuros maravilhosos pelos outros.
Assim, temos duas hipóteses:

1 – Deixamos de crer nos outros;

e/ou

2 – Deixamos de sonhar.


É fácil apresentar esta escolha… Um pouco mais difícil pô-la em prática. Mais para uns que para outros porque não somos todos iguais. Felizmente.
Há os parvinhos que gostam de acreditar. Que amam o sonho.
E há os fortes que, à partida, acreditam apenas naquilo que se lhes depara defronte e no presente.
A desilusão é condição sine qua non dos sonhadores. Os não sonhadores… lixam-se menos…

Felicidades aos totós e aos valentões!
Eu? Eu nunca vou deixar de sonhar!

11 Fevereiro 2008

Corro
Em busca ou em fuga
Não sei, mas corro

Corro pela serra
Conselheira de desatinos
Silenciosa e ouvinte
Corro sem parar

Corro para ficar mais forte
Para ficar aqui
Para lutar

Ou então…

Corro para desaparecer
Corro para emagrecer, emagrecer, emagrecer
Até que ninguém me veja

Corro para qualquer lugar
Corro para transpirar
Corro para libertar
Todo o fel que a vida deixa
Todo o amargo que fica

Estou cansada, mas…

Corro

Corro em busca e em fuga
Corro para ficar e para partir
Corro sem rumo
Não sei para onde quero ir

Não posso mais…
Paro!
Descanso

Levanto-me do chão

Corro

16 Janeiro 2008

Fetiche da razão

Escrever qualquer coisa sobre humildade, só por si, revela alguma falta dela.
Desculpem. É um termo cada vez menos utilizado, mas que uso agora (para que me perdoem a arrogância de vos falar sobre humildade) e sempre que julgo ter necessidade. Quase todos os dias e várias vezes.
Por isso, desculpem lá, mas eu vou mesmo falar sobre humildade. Ou sobre a falta dela.

Parece-me que cada vez mais as pessoas têm orgulho nas suas convicções. O que é bom. É sinal de que vivemos num mundo cheio de pessoas seguras de si, que sabem perfeitamente o que querem e o que está certo ou errado.
A parte negativa é quando toda esta segurança se torna um fetiche! Olho à minha volta e acho que as pessoas andam obcecadas em serem donas da razão em regime de exclusividade.

Quando tive Filosofia no décimo ano aprendi que não existe uma forma de ver o mundo, mas várias. E isso é extremamente gratificante! Porque permite-nos aprender qualquer coisa todos os dias. Nem é muito complicado: basta ouvir o que têm para nos dizer. Porque se a ignorância é não saber, não querer saber é mesmo falta de inteligência.
Por exemplo: não é por me parecer que as pessoas se esgatanham por causas como a temperatura atmosférica estar mais baixa ontem que hoje ou o ajax ser melhor que o sonasol, que penso que estou certa. É apenas a forma como me sinto quando vejo que toda a gente discute por causas de relevância questionável… pelo menos sob o meu ponto de vista.
A razão que evoco para esta luta desenfreada pela posse da razão é a falta que temos de algo que nos apimente o quotidiano de rotina. Então, em vez de gastarmos energias, por exemplo, num ginásio ou a fazer o amor, passamos a ter um fetiche dos novos tempos: o fetiche da razão.
A forma como lido com isso é: pôr em causa as minhas convicções; ouvir as dos outros; ponderar… e muitas vezes... SURPRESA!!! Aprendi algo novo! E isso, como disse antes, é muito gratificante!

A Paz ou a manutenção dela não é competência exclusiva dos grandes líderes mundiais. A Paz começa dentro da casa de cada um de nós. E quando aprendermos a ouvir (simplesmente) e (mais difícil) a tolerar os pontos de vista dos outros, a (ainda mais difícil) aprendermos com eles, tenho a certeza (ou não) de que seremos, pelo menos um bocadinho, mais felizes.

Quando chegamos à triste conclusão que talvez estejamos errados ou não totalmente certos, a maior vergonha não é admiti-lo. A maior vergonha é passarmos pelo ridículo de não pedir desculpa.

Ninguém é demasiado pequeno para ensinar. Ninguém é tão grande que não possa aprender.

Desculpem lá…

05 Janeiro 2008

«Gajo que cheire a caril 'tá lixado»

Chego à conclusão que as férias têm um lado negativo… é triste, mas é verdade.
A cabeça anda a mil à hora em torno de questões que, quando estou a trabalhar, me passam mais despercebidas. Então talvez isso não seja assim tão negativo…

O cancelamento do Lisboa-Dakar, por exemplo, é uma questão que tem ocupado muito o meu pensamento. Não tanto pelo fascínio que tenho pelo desporto motorizado e pela tristeza de não ver este ano o espectáculo, mas pelo que significou esta grande derrota da Liberdade do mundo civilizado.

É um nó na garganta, um soco no estômago para quem gosta de aventura, para quem desfruta das maravilhas naturais deste mundo, mas, acima de tudo para quem ama a Liberdade!
Tenho ouvido muitas críticas à organização por não ter encontrado uma alternativa, alterando o percurso ou realizando a prova apenas até Marrocos. A verdade é que não conhecemos a dimensão da ameaça, mas parece-me que seria um bonito “não baixar os braços” por parte da organização apresentar uma alternativa, por mais que esta soubesse a pouco.
Neste preciso momento está um monte de camelos (não estou a falar dos animaizinhos, mas sim desses FDPs dos terroristas) a rir-se de nós. E nós, por outro lado, ou pelo menos eu, a morrer de pena… deles! Só podem ser doentes!
Espero, do fundo do coração, que toda e cada bomba que tinham preparado para mandar pelo ar a malta do Dakar lhes expluda nas mãos (ou no c**). Uma para cada um. Um por um até não sobrar nenhum turbante para contar a história! E assim viveríamos num mundo mais harmonioso.

Queria acabar este post com duas coisas:

1 – Um apelo a quem pode fazer alguma coisa: Não acabem com o Dakar! Para o ano passem mesmo por baixo das barbas destes anormais! Ah! E se possível atropelem um ou dois…

2 – Parafrasear o “gajo de Alfama” (tirando a parte dos Ciganos, como é óbvio :D):


17 Dezembro 2007

Eyes Wide Shut


Esta é a altura do ano em que "as pessoas é boazinhas”.
O natal deprime-me.
Ninguém tem coragem de admitir que o melhor do natal são as prendas e o subsídio.

Magoa-me ver todas as campanhas de solidariedade que surgem nesta quadra como cogumelos. Os anúncios de televisão de supermercados em parceria com vedetas bem vestidas. E o resto do ano? E quem passa fome todo o ano? E as crianças que não têm saúde, nem pais, nem tecto o resto do ano?... O resto da vida.

…Dói!

A solidariedade, a verdadeira solidariedade, vai muito para além do natal. Vai muito para além de dar dinheiro.
Eu vejo a solidariedade em entidades como a UNICEF, a AMI, entre outras semelhantes, que, com voluntários que deixam de ter o natal bonito que todo o mundo tem, a vida confortável que toda a gente leva, para DAR. Simplesmente para DAR TUDO… cuidados, colo, amor, carinho… Todo o ano.

E já que se fala em natal, uma festa religiosa, ocorre-me referir a posição do vaticano.
Só mesmo com uma fé descomunal se pode acreditar que deus resolve tudo.
É muito fácil: nadam em luxo, do mais chocante que há, mas põem nas mãos de deus a justiça entre os homens.

Como escreveu Salman Rushdie:

«Ninguém pode olhar o mundo de frente se tiver os olhos constantemente abertos».

16 Novembro 2007

Apologia de Sócrates

Não vou escrever sobre a obra de Platão com o mesmo título deste post, mas sim sobre o nosso primeiro-ministro, José Sócrates.
Embora, pensando bem, até se possa fazer uma analogia entre a obra do filósofo grego e o que frequentemente se passa com o chefe do governo. Vejam este excerto do resumo da Apologia de Sócrates, de Platão:

«Sócrates começa a sua defesa advertindo que dirá unicamente a verdade e, ao mesmo tempo, afirmando que os seus acusadores nada disseram de verdadeiro, embora tenham sido tão convincentes, que quase fizeram o próprio Sócrates crer que era culpado pelo que não fez.»

Não sei porquê, mas até faz lembrar…

A defesa que eu faço de Sócrates alicerça-se… nele próprio!
Ele é simpático, acessível, charmoso, alto, espadaúdo; cumprimenta toda a gente onde bebe a bica, no café da esquina, deixando os seguranças à porta com os nervos em franja. Gosto!
Muitos consideram o primeiro-ministro arrogante. A mim parece-me que ele é mais do tipo de não ter papas na língua, nem grande paciência para rodeios quando está a ser atacado. Com ou sem razão.
Sócrates destaca-se num país que está pouco a habituado a ouvir verdades.
Sócrates, acima de tudo, é de carne e osso! E sem complexos em assumi-lo.

E as políticas que tem implementado desde que chegou ao governo?
Pois… a isso já não sei responder, sobretudo se o que se pretende é um termo de comparação com as anteriores.
Mas o que é que isso interessa? O homem é um bacano! Não é essa qualidade que anda nas bocas de toda a gente como sendo o grande objectivo a alcançar na nossa passagem pelo universo?
A postura de Sócrates faz lembrar o slogan de um anúncio não me lembro bem a quê:

«E tu? Até que idade pensas divertir-te?».

E aqueles tempos em que ele não usava gravata? Que trendy!
Agora, deixou esses hábitos mais à esquerda e já anda vestido à beto. Será que é por isso que o acusam de ter virado à direita? Só pode! Por causa da sua governação não deve ser. Aliás, não se percebe muito bem actualmente o que é que é de esquerda e de direita. Minto: topa-se à légua pela indumentária!
É como Portugal, de resto… nem à esquerda, nem à direita… nem para a frente, nem para trás. Doce marasmo do clima maravilhoso que apenas fervilha dentro de estádios ou dentro das tabernas frente à SporTV.

Um pouco mais a sério… Daquilo que conheço da política deste governo, o que posso dizer é que existe muita coisa bem pensada e bem feita. E que também existe muita injustiça.
Logo, não vejo grande diferença deste para com os governos antecessores, à excepção, de facto, de… Sócrates!
Porque ele é agradável, porque é giro e porque aperta com quem aperta com ele.
O resto? Que importa?

E você? O que é que espera de um primeiro-ministro?

30 Agosto 2007

Uma chama imensa...

O Benfica…
Antes de mais quero felicitar a grande instituição que é o Sport Lisboa e Benfica e todos os seus adeptos e simpatizantes pela vitória que impôs ontem ao Copenhaga a contar para a Liga dos Campeões, num jogo bonito e eficaz.
Parabéns a todos e obrigada por dignificarem mais uma vez o nome de Portugal!

Depois de decorrido o primeiro parágrafo deste post, quem me conhece, ou está a temer pela minha saúde mental ou está a pensar: "O que é que vem por aí?...”.
Nada disso!
O Benfica é incontestavelmente um grande clube. Sério! É mesmo muito grande. Não são seis milhões? Ninguém pode negar que é enorme, é verdade. Mas faz-me confusão que não distingam a quantidade da qualidade. Não quero com isto dizer que o SLB e os seus seguidores não tenham valor.
Mas admitam… o facto de serem realmente muitos (ou “BUÉS” ou “mais c’às mães”), como adoram dizer, não faz de vós (nem de ninguém) necessariamente os melhores do mundo.

Frase preferida dos benfiquistas: “Somos os maiores!!!”.
Minha discreta questão a essa afirmação: “Porquê?”.
Podiam dizer, por exemplo, “Somos os mais numerosos!!!”. Mas também percebo que não o façam com grande ligeireza, porque a verdade é que não existe nada que o comprove. Nem sequer o senso comum.

Parece que o Benfica é o clube do mundo com mais adeptos. E sócios. Até entrou para o Guinness World Records Book e tudo.
Eu compreendo a vossa excitação face a esta proeza (ou talvez não compreenda assim lá muito bem, confesso), mas, sem querer desiludi-los…
Sabem que… existe… de facto… uma vaga, ou não tão vaga quanto isso… possibilidade de não ser bem assim?
Toda a gente sabe que o Guinness World Records Book é uma instituição, tal como o Benfica, séria e credível. Aliás, isso é perfeitamente notório a avaliar pelo tipo de feitos a que se dedica a certificar e a registar: o maior pão do mundo; o maior arjamolho à confrade algarvio; a pessoa que conseguiu aguentar mais tempo a cavalgar uma abelha… Tudo coisas de extrema preponderância para o mundo em que vivemos.
Assim sendo, é óbvio que o Guinness se dedicou também aplicadamente a fazer inquéritos a toda a população do planeta para apurar, em todos os lares dos cinco continentes, quantas «chamas imensas» ardem por esse mundo fora. Quantas «papoilas saltitantes» vibram com o SLB.
O próprio Benfica tem dados surpreendentes sobre o grau de benfiquismo da população mundial, como refere José António Lima num artigo intitulado O Mito do Saloio, publicado no jornal desportivo A Bola:


«Há muito que se sabia que o mito dos 6 milhões de adeptos benfiquistas em Portugal era uma ficção. Ao longo das últimas décadas foram várias as sondagens e estudos de opinião que colocaram bem mais abaixo o volume de apoiantes do clube da Luz.

(…), agora é o próprio Benfica a desmentir a invenção dos 6 milhões. Tendo, porventura, a noção de que certos exageros são insustentáveis a prazo e de que algumas ilusões, além de efémeras, acabam por se tornar contraproducentes.
(…)
Insistentemente propalada aos quatro ventos, interiorizada por muitos como verdade oficial, utilizada como último e definitivo argumento em momentos de crise ou infortúnio - mas, em qualquer circunstância, uma fantasia.
(…)
Mas o estudo encomendado pelo Benfica, supõe-se que da empresa Aximage, não podendo confirmar, longe disso, os tais 6 milhões, dispara para outras alturas e direcções.
E descobre que há, no mundo, nada mais nada menos do que… 14 milhões de benfiquistas! Se, em Portugal, não chegam aos 5 milhões, essa penosa redução do contingente de adeptos é compensada com reforços prodigiosos fora de portas: quase 4 milhões de benfiquistas em Moçambique, perto de 3 milhões em Angola ou meio milhão só no Canadá. Sem esquecer os 153.584 benfiquistas encontrados na África do Sul, os 116.790 residentes na Indochina ou os 5699 que foram descobertos ao sol das Caraíbas. Tudo somado, e contando com os quase 100 mil seguidores da causa benfiquista em terras tão improváveis como a China ou a Austrália, dá mais de 14 milhões.Sem querer desmerecer da boa vontade do estudo, vale a pena atentar com mais vagar e atenção nalguns números. Em Moçambique, por exemplo, existirão 3.803.123 benfiquistas (e 123 porquê? de onde virá tamanha exactidão? a sondagem foi feita pelo telefone? em urna fechada? Mistérios…). Ora, isso significa que mais de 20 por cento de toda a população moçambicana é benfiquista. Uma falange de adeptos que deve fazer inveja ao Ferroviário de Nampula, ao Desportivo do Maputo ou ao Maxaquene, campeões moçambicanos que nem um terço desses adeptos podem apresentar como cartão-de-visita.O mesmo se passa em Angola, onde o Petro de Luanda, o 1.º de Agosto, o Sporting de Cabinda ou, para não ir mais longe, o Benfica do Lubango se vêem impotentes perante a multidão de 2.784.202 (e 2? porquê 2?) adeptos do clube lisboeta. (…)
»

E o estudo continua neste magnífico tom de entusiasmo, colocando um sem número de adeptos em países que toda a gente reconhece obviamente como sendo de tradicional alma benfiquista como a Islândia, a China, o Vietname, o Cambodja e por todo o mar das Caraíbas.

Parece que existem alguns problemas matemáticos na Luz.
E não é só no que toca à contabilização de sócios. Por exemplo, não entendo como é que um resultado numa partida de futebol de 6-3 é considerado mais escabroso do que um 7-1. Será porque o 6-3 é mais recente? Então também não vislumbro a razão da evocação permanente e constante exaltação das glórias que datam do tempo da Maria Caxuxa. Aliás, do tempo do Salazar, quando andava nas bocas de toda a gente: "Quem não é do Benfica não é bom chefe de família!". Maravilhas do Estado Novo.

Não pensem que não gosto do Benfica.
Eu até acho o Benfica querido. Sério! Tem aquele tipo de ingenuidade infantil que responde às perguntas difíceis com um ternurento "Porque sim!".
Aqui há tempos até vi algures num blog um post que dizia que o Bart Simpson era do Benfica desde pequenino. Achei perfeito! Já viram como eles se comportam à mesa? A comer de boca aberta e com as mãos? E a arrotar que nem… sei lá o quê? E a forma delicada como tratam os vizinhos?

Opá! São tão queridos!

17 Agosto 2007

Tempo

Acabaram as férias.
É uma altura em que o Tempo se depara diante de mim de uma forma mais inequívoca do que em qualquer outra.
Vejo-o na minha vida como um bem, apesar das contrariedades com que por vezes me ataca, como, por exemplo, a idade que vai passando sem que tenha feito algumas coisas que queria já ter feito ou a ansiedade de que algo aconteça.

Este rosto negativo do Tempo não chega, porém, para me fazer odiá-lo. Amo o Tempo. É a entidade mais pura que conheço, a mais reveladora, para o bem e para o mal. Mas sempre para a verdade.

Tem-me feito muito bem, o Tempo. Os erros que cometi, ele não apaga, mas revela-os e amadurece-os para que possa aprender com eles. Aquilo que não foram erros, leva-os consigo para que eu não tenha que carregá-los. É incrível como me consola e me justifica tudo o que faço.
Quanto às coisas boas que fiz, emoldura-as para que eu possa pendurá-las nas paredes da galeria onde vou às vezes.

Percam tempo a viver a vossa vida, porque vale a pena. Mas NUNCA percam o Tempo. O querido Tempo.

17 Julho 2007

Summertime

Em homenagem ao verão e às férias...


13 Julho 2007

Susana em lágrimas

Acabei de ler o Susana em Lágrimas há dias.
Trata-se de um romance ao estilo Joanne Harris, mas em bom. Ou, pelo menos, menos mau.
Não me parece que seja uma obra «admirável» nem «brilhante» como vem citado na capa do livro como sendo a crítica do Independent.
Também me parece estar um pouco aquém de ser «um esboço de quase todos os aspectos da realidade israelita», como se pode ler na mesma citação.
Não que neste ponto o livro fuja à verdade, até porque não conheço a realidade israelita para afirmar isso, mas parece-me recheado de verdades de La Palisse e que só com muito boa vontade é que podem ser vistas como grandes revelações daquilo que é a sociedade israelita contemporânea. Ou talvez eu estivesse com expectativas altas neste campo e por isso depois me tivesse desiludido um pouco.
… Mas por exemplo: é do conhecimento geral que em Israel existe muita gente um pouco perturbada por ter visto toda a sua família sucumbir ao holocausto. É, não é? E também se sabe que terra era Israel antes de o ser, e quem lá estava antes, não sabe? E também sabemos, ou pelo menos suspeitamos fortemente, que os árabes são todos (…enfim… alguns. Não vamos generalizar) meio apanhados do clima, não sabemos? E também não nos será muito difícil imaginar, dada a sua latitude, que em Israel, no verão, faz um calor de ananases, certo?
É por tudo isto que não senti que o Susana em Lágrimas me ensinasse muito sobre a sociedade israelita.


Alona Kimhi, a autora, tem, porém, quanto a mim, um outro grande mérito, perante o qual me curvo e tiro o chapéu, e que é a razão deste post: Susana. A tal que está permanentemente em lágrimas e que é uma personagem no mínimo insólita. Vulgo cromo. Mas sério.

Conheço uma senhora que, através de uma bactéria, contraiu certa vez um síndroma raríssimo que a deixou às portas da morte e que consiste, grosso modo, em ter as doenças todas de pele que existem, umas a seguir às outras, forte e feio.
Eu acho que a Susana tem isso, mas na versão do foro psicológico. E no caso dela, apesar de não se dever fazer pouco destas coisas,… desculpem… mas acaba por ser hilariante!
Ora leiam:

«Eu [Susana] abracei-a [mãe da Susana] e disse, qual quê, és a pessoa de quem mais gosto no mundo. E senti um cheiro que, apesar de ela ser uma pessoa asseada, era o cheiro a mofo da velhice, e senti também um leve cheiro a fritos e a champô de ovos anticaspa que emanava dos seus cabelos e fiquei cheia de orgulho por ter sido capaz de vencer o nojo.
Uma das coisas que mais me fazem sofrer é o nojo e o ódio que sinto por pessoas de quem gosto.»

Mas há mais! A páginas tantas, ela vai ao teatro, mas está como que um bocadito contrariada. E então faz isto:

«(…), levo a palma da minha mão direita à boca e ferro os dentes com toda a força na carne entre o indicador e o polegar. Fecho o maxilar e começo a morder, Quanto mais me dói, mais mordo.
E subitamente percebo quem sou. Percebo perfeitamente.
Sou uma criatura.
(…)
Cravo os dentes ainda com mais força. Parece-me que começo a sentir o gosto salgado do sangue, (…). Mordo com mais força.
(…)
Em breve tudo isto vai chegar ao fim e na minha boca restará apenas um pedaço de pele e de carne. Uma dentadinha de hamburger em sangue. Engulo-a? Cuspo-a? Acaba de mastigar, Susana, para seres grande e forte.»


No comments…
E a relação da Susana com a cadelita rottweiler do vizinho?
A cadela, que inicialmente Susana julga ser um cão, sempre lhe teve um ódio de morte, ladrando descontroladamente para deixar bem claros os sentimentos que nutria por ela sempre que a via.
Então a Susaninha, um belo dia, quando se depara com a cadela, em vez de se por a milhas como habitualmente, avança para ela, pé ante pé, e faz isto:

«Estava de cócoras como um beduíno em frente do cão. Este ainda lançava uns restos de uivos, e tinha os olhos pretos e brilhantes cravados em mim, com curiosidade. (…)
Eu estava mesmo diante dele. Já nada fazia diferença. Voltei a fechar os olhos. A minha respiração calma cruzou-se com a dele, quente, repugnante. Uma respiração a tresandar a carne. A sensação de nojo era quase agradável. Relaxante. Sensual. Uma coisa húmida e rugosa tocou-me na cara, deslizou por ela, e molhou-a com um líquido pegajoso e fumegante. Abri os olhos. A língua dele de um rosa-arroxeado, lambia-me as faces, os olhos. O queixo. Título do Jornal Ha’aretz: “Uma mulher mantinha relações sexuais com um rottweiler arraçado de Kurtzweiler em Ramat-Gan. Os juízes prolongaram a sua detenção por mais quarenta e oito horas…”»


… Falta dizer que Susana fez isto para impressionar o seu amado, mais uma daquelas pessoas de quem tinha muito nojo, muito nojo, mas que não descansou enquanto não o levou para a cama.

E depois os árabes é que são apanhados do clima…