17 dezembro 2007

Eyes Wide Shut


Esta é a altura do ano em que "as pessoas é boazinhas”.
O natal deprime-me.
Ninguém tem coragem de admitir que o melhor do natal são as prendas e o subsídio.

Magoa-me ver todas as campanhas de solidariedade que surgem nesta quadra como cogumelos. Os anúncios de televisão de supermercados em parceria com vedetas bem vestidas. E o resto do ano? E quem passa fome todo o ano? E as crianças que não têm saúde, nem pais, nem tecto o resto do ano?... O resto da vida.

…Dói!

A solidariedade, a verdadeira solidariedade, vai muito para além do natal. Vai muito para além de dar dinheiro.
Eu vejo a solidariedade em entidades como a UNICEF, a AMI, entre outras semelhantes, que, com voluntários que deixam de ter o natal bonito que todo o mundo tem, a vida confortável que toda a gente leva, para DAR. Simplesmente para DAR TUDO… cuidados, colo, amor, carinho… Todo o ano.

E já que se fala em natal, uma festa religiosa, ocorre-me referir a posição do vaticano.
Só mesmo com uma fé descomunal se pode acreditar que deus resolve tudo.
É muito fácil: nadam em luxo, do mais chocante que há, mas põem nas mãos de deus a justiça entre os homens.

Como escreveu Salman Rushdie:

«Ninguém pode olhar o mundo de frente se tiver os olhos constantemente abertos».

30 agosto 2007

Uma chama imensa...

O Benfica…
Antes de mais quero felicitar a grande instituição que é o Sport Lisboa e Benfica e todos os seus adeptos e simpatizantes pela vitória que impôs ontem ao Copenhaga a contar para a Liga dos Campeões, num jogo bonito e eficaz.
Parabéns a todos e obrigada por dignificarem mais uma vez o nome de Portugal!

Depois de decorrido o primeiro parágrafo deste post, quem me conhece, ou está a temer pela minha saúde mental ou está a pensar: "O que é que vem por aí?...”.
Nada disso!
O Benfica é incontestavelmente um grande clube. Sério! É mesmo muito grande. Não são seis milhões? Ninguém pode negar que é enorme, é verdade. Mas faz-me confusão que não distingam a quantidade da qualidade. Não quero com isto dizer que o SLB e os seus seguidores não tenham valor.
Mas admitam… o facto de serem realmente muitos (ou “BUÉS” ou “mais c’às mães”), como adoram dizer, não faz de vós (nem de ninguém) necessariamente os melhores do mundo.

Frase preferida dos benfiquistas: “Somos os maiores!!!”.
Podiam dizer, por exemplo, “Somos os mais numerosos!!!”. Mas também percebo que não o façam com grande ligeireza, porque a verdade é que não existe nada que o comprove. Nem sequer o senso comum.

Parece que o Benfica é o clube do mundo com mais adeptos. E sócios. Até entrou para o Guinness World Records Book e tudo.
Eu compreendo a excitação face a esta proeza (ou talvez não compreenda assim lá muito bem, confesso), mas, sem querer desiludi-los…
Sabem que… existe… de facto… uma vaga, ou não tão vaga quanto isso… possibilidade de não ser bem assim?
Toda a gente sabe que o Guinness World Records Book é uma instituição, tal como o Benfica, séria e credível. Aliás, isso é perfeitamente notório a avaliar pelo tipo de feitos a que se dedica a certificar e a registar: o maior pão do mundo; o maior arjamolho à confrade algarvio; a pessoa que conseguiu aguentar mais tempo a cavalgar uma abelha… Tudo coisas de extrema preponderância para o mundo em que vivemos.
Assim sendo, é óbvio que o Guinness se dedicou também aplicadamente a fazer inquéritos a toda a população do planeta para apurar, em todos os lares dos cinco continentes, quantas «chamas imensas» ardem por esse mundo fora. Quantas «papoilas saltitantes» vibram com o SLB.
O próprio Benfica tem dados surpreendentes sobre o grau de benfiquismo da população mundial, como refere José António Lima num artigo intitulado O Mito do Saloio, publicado no jornal desportivo A Bola:


«Há muito que se sabia que o mito dos 6 milhões de adeptos benfiquistas em Portugal era uma ficção. Ao longo das últimas décadas foram várias as sondagens e estudos de opinião que colocaram bem mais abaixo o volume de apoiantes do clube da Luz.

(…), agora é o próprio Benfica a desmentir a invenção dos 6 milhões. Tendo, porventura, a noção de que certos exageros são insustentáveis a prazo e de que algumas ilusões, além de efémeras, acabam por se tornar contraproducentes.
(…)
Insistentemente propalada aos quatro ventos, interiorizada por muitos como verdade oficial, utilizada como último e definitivo argumento em momentos de crise ou infortúnio - mas, em qualquer circunstância, uma fantasia.
(…)
Mas o estudo encomendado pelo Benfica, supõe-se que da empresa Aximage, não podendo confirmar, longe disso, os tais 6 milhões, dispara para outras alturas e direcções.
E descobre que há, no mundo, nada mais nada menos do que… 14 milhões de benfiquistas! Se, em Portugal, não chegam aos 5 milhões, essa penosa redução do contingente de adeptos é compensada com reforços prodigiosos fora de portas: quase 4 milhões de benfiquistas em Moçambique, perto de 3 milhões em Angola ou meio milhão só no Canadá. Sem esquecer os 153.584 benfiquistas encontrados na África do Sul, os 116.790 residentes na Indochina ou os 5699 que foram descobertos ao sol das Caraíbas. Tudo somado, e contando com os quase 100 mil seguidores da causa benfiquista em terras tão improváveis como a China ou a Austrália, dá mais de 14 milhões.Sem querer desmerecer da boa vontade do estudo, vale a pena atentar com mais vagar e atenção nalguns números. Em Moçambique, por exemplo, existirão 3.803.123 benfiquistas (e 123 porquê? de onde virá tamanha exactidão? a sondagem foi feita pelo telefone? em urna fechada? Mistérios…). Ora, isso significa que mais de 20 por cento de toda a população moçambicana é benfiquista. Uma falange de adeptos que deve fazer inveja ao Ferroviário de Nampula, ao Desportivo do Maputo ou ao Maxaquene, campeões moçambicanos que nem um terço desses adeptos podem apresentar como cartão-de-visita.O mesmo se passa em Angola, onde o Petro de Luanda, o 1.º de Agosto, o Sporting de Cabinda ou, para não ir mais longe, o Benfica do Lubango se vêem impotentes perante a multidão de 2.784.202 (e 2? porquê 2?) adeptos do clube lisboeta. (…)»

E o estudo continua neste magnífico tom de entusiasmo, colocando um sem número de adeptos em países que toda a gente reconhece obviamente como sendo de tradicional alma benfiquista como a Islândia, a China, o Vietname, o Cambodja e por todo o mar das Caraíbas.

Parece que existem alguns problemas matemáticos na Luz.
E não é só no que toca à contabilização de sócios. Por exemplo, não entendo como é que um resultado numa partida de futebol de 6-3 é considerado mais escabroso do que um 7-1. Será porque o 6-3 é mais recente? Então também não entendo a razão da evocação permanente e constante exaltação das glórias que datam do tempo da Maria Caxuxa. Aliás, do tempo do Salazar, quando andava nas bocas de toda a gente: "Quem não é do Benfica não é bom chefe de família!". Maravilhas do Estado Novo.

Não pensem que não gosto do Benfica.
Eu até acho o Benfica querido. Sério! Tem aquele tipo de ingenuidade infantil que responde às perguntas difíceis com um terno "Porque sim!".
Aqui há tempos até vi algures num blog um post que dizia que o Bart Simpson era do Benfica desde pequenino. Achei perfeito! Já viram como eles se comportam à mesa? A comer de boca aberta e com as mãos? E a arrotar que nem… sei lá o quê? E a forma delicada como tratam os vizinhos?

Opá! São tão queridos!

17 agosto 2007

Tempo

Acabaram as férias.
É uma altura em que o Tempo se depara diante de mim de uma forma mais inequívoca do que em qualquer outra.
Vejo-o na minha vida como um bem, apesar das contrariedades com que por vezes me ataca, como, por exemplo, a idade que vai passando sem que tenha feito algumas coisas que queria já ter feito ou a ansiedade de que algo aconteça.

Este rosto negativo do Tempo não chega, porém, para me fazer odiá-lo. Amo o Tempo. É a entidade mais pura que conheço, a mais reveladora, para o bem e para o mal. Mas sempre para a verdade.

Tem-me feito muito bem, o Tempo. Os erros que cometi, ele não apaga, mas revela-os e amadurece-os para que possa aprender com eles. Aquilo que não foram erros, leva-os consigo para que eu não tenha que carregá-los. É incrível como me consola e me justifica tudo o que faço.
Quanto às coisas boas que fiz, emoldura-as para que eu possa pendurá-las nas paredes da galeria onde vou às vezes.

Percam tempo a viver a vossa vida, porque vale a pena. Mas NUNCA percam o Tempo. O querido Tempo.

13 julho 2007

Susana em lágrimas

Acabei de ler o Susana em Lágrimas há dias.
Trata-se de um romance ao estilo Joanne Harris, mas em bom. Ou, pelo menos, menos mau.
Não me parece que seja uma obra «admirável» nem «brilhante» como vem citado na capa do livro como sendo a crítica do Independent.
Também me parece estar um pouco aquém de ser «um esboço de quase todos os aspectos da realidade israelita», como se pode ler na mesma citação.
Não que neste ponto o livro fuja à verdade, até porque não conheço a realidade israelita para afirmar isso, mas parece-me recheado de verdades de La Palisse e que só com muito boa vontade é que podem ser vistas como grandes revelações daquilo que é a sociedade israelita contemporânea. Ou talvez eu estivesse com expectativas altas neste campo e por isso depois me tivesse desiludido um pouco.
… Mas por exemplo: é do conhecimento geral que em Israel existe muita gente um pouco perturbada por ter visto toda a sua família sucumbir ao holocausto. É, não é? E também se sabe que terra era Israel antes de o ser, e quem lá estava antes, não sabe? E também sabemos, ou pelo menos suspeitamos fortemente, que os árabes são todos (…enfim… alguns. Não vamos generalizar) meio apanhados do clima, não sabemos? E também não nos será muito difícil imaginar, dada a sua latitude, que em Israel, no verão, faz um calor de ananases, certo?
É por tudo isto que não senti que o Susana em Lágrimas me ensinasse muito sobre a sociedade israelita.

Alona Kimhi, a autora, tem, porém, quanto a mim, um grande mérito, perante o qual me curvo, que é a razão deste post: Susana. A tal que está permanentemente em lágrimas e que é uma personagem no mínimo insólita. Vulgo cromo. Mas sério.

Conheço uma senhora que, através de uma bactéria, contraiu certa vez um síndroma raríssimo que a deixou às portas da morte e que consiste, grosso modo, em ter as doenças todas de pele que existem, umas a seguir às outras, forte e feio.
Eu acho que a Susana tem isso, mas na versão do foro psicológico. E no caso dela, apesar de não se dever fazer pouco destas coisas,… desculpem… mas acaba por ser hilariante!
Ora leiam:

«Eu [Susana] abracei-a [mãe da Susana] e disse, qual quê, és a pessoa de quem mais gosto no mundo. E senti um cheiro que, apesar de ela ser uma pessoa asseada, era o cheiro a mofo da velhice, e senti também um leve cheiro a fritos e a champô de ovos anticaspa que emanava dos seus cabelos e fiquei cheia de orgulho por ter sido capaz de vencer o nojo.
Uma das coisas que mais me fazem sofrer é o nojo e o ódio que sinto por pessoas de quem gosto.»

Mas há mais! A páginas tantas, ela vai ao teatro, mas está como que um bocadito contrariada. E então faz isto:

«(…), levo a palma da minha mão direita à boca e ferro os dentes com toda a força na carne entre o indicador e o polegar. Fecho o maxilar e começo a morder, Quanto mais me dói, mais mordo.
E subitamente percebo quem sou. Percebo perfeitamente.
Sou uma criatura.
(…)
Cravo os dentes ainda com mais força. Parece-me que começo a sentir o gosto salgado do sangue, (…). Mordo com mais força.
(…)
Em breve tudo isto vai chegar ao fim e na minha boca restará apenas um pedaço de pele e de carne. Uma dentadinha de hamburger em sangue. Engulo-a? Cuspo-a? Acaba de mastigar, Susana, para seres grande e forte.»

No comments…
E a relação da Susana com a cadelita rottweiler do vizinho?
A cadela, que inicialmente Susana julga ser um cão, sempre lhe teve um ódio de morte, ladrando descontroladamente para deixar bem claros os sentimentos que nutria por ela sempre que a via.
Então a Susaninha, um belo dia, quando se depara com a cadela, em vez de se por a milhas como habitualmente, avança para ela, pé ante pé, e faz isto:

«Estava de cócoras como um beduíno em frente do cão. Este ainda lançava uns restos de uivos, e tinha os olhos pretos e brilhantes cravados em mim, com curiosidade. (…)
Eu estava mesmo diante dele. Já nada fazia diferença. Voltei a fechar os olhos. A minha respiração calma cruzou-se com a dele, quente, repugnante. Uma respiração a tresandar a carne. A sensação de nojo era quase agradável. Relaxante. Sensual. Uma coisa húmida e rugosa tocou-me na cara, deslizou por ela, e molhou-a com um líquido pegajoso e fumegante. Abri os olhos. A língua dele de um rosa-arroxeado, lambia-me as faces, os olhos. O queixo. Título do Jornal Ha’aretz: “Uma mulher mantinha relações sexuais com um rottweiler arraçado de Kurtzweiler em Ramat-Gan. Os juízes prolongaram a sua detenção por mais quarenta e oito horas…”»

… Falta dizer que Susana fez isto para impressionar o seu amado, mais uma daquelas pessoas de quem tinha muito nojo, muito nojo, mas que não descansou enquanto não o levou para a cama.

E depois os árabes é que são apanhados do clima…

11 julho 2007

Quem diz a verdade não merece castigo

Pensei que a história do camelo, ou melhor, do deserto estava esquecida. Eu pelo menos esqueci-me... Mas há pessoas que não.
As madalenas ofendidas continuam a reivindicar um pedido de desculpas por parte do ministro das obras públicas, transportes e comunicações. Eu sei... ele foi politicamente incorrecto. Mas disse a verdade, é um facto. Melhor: fugiu-lhe a boca para a verdade. E quem diz a verdade não merece castigo.

A margem sul é cada vez mais um deserto sobretudo no que diz respeito ao emprego, um PEQUENO pormenor que faz dos sítios algo mais que apenas dormitórios. Aliás, é graças a não haver emprego na margem sul que todos os dias milhares de pessoas como eu passam pelo calvário de se deslocarem para Lisboa para trabalhar. O que, além de economicamente dispendioso, é profundamente triste, uma vez que nos rouba horas de vida, essas sem preço.

Concordo, no entanto, que Mário Lino se esqueceu de acrescentar uma ou outra questão às declarações que proferiu. Esqueceu-se, por exemplo, que se a sul do Tejo não se passa nada é porque não só o seu governo como os que lhe antecederam nunca investiram a sério naquela zona do país. E esqueceu-se também, ou nunca lhe passou pela cabeça, que o aeroporto seria uma boa oportunidade para que o deserto deixasse de o ser, proporcionando mais emprego e melhor qualidade de vida a quem lá mora. Qualidade de vida, sim! Conheço algumas pessoas que moram na Portela e não estão surdas nem deprimidas. Conheço outras, porém, em Setúbal, Palmela e arredores, que não levam com o barulho dos aviões, mas que, além de deprimidas, passam fome, porque não têm onde trabalhar.

Como disse antes, o ministro foi politicamente incorrecto e confesso que até acho uma certa piada àquele outdoor do camelo cor-de-rosa.
Mas aos nativos do deserto eu peço: em vez de fazerem birras que não vos vão levar a lado nenhum e de ficarem ofendidinhos com sua excelência (garanto-vos que ele não está muito sensibilizado com isso), façam alguma coisa pela vossa terra que, pelos vistos, tanto prezam, e reivindiquem o aeroporto para a margem sul.

10 julho 2007

Acto egoísta

Este é o meu primeiro post no meu primeiro blog.
Trata-se de mais uma prova evidente entre muitas outras que já tive que jamais podemos dizer “desta água não beberei”.

O meu surgimento neste mundo é também, e acima de tudo, um acto de egoísmo. Eu preciso de escrever. Desde muito miúda (12/13 anos) que sempre que estava lixada com alguma coisa, escrevia sobre o assunto e ficava melhor. Mais tarde, comecei a optar pela nicotina e a curtir a depressão com brutais dores de cabeça que me faziam dormir. Isso era óptimo porque enquanto se dorme não se está em contacto com a realidade.
Agora que deixei de fumar, e à beira de outra depressão (uma excelente fase para escrever coisas perturbadas que os outros acham muito profundas), a vontade de escrever voltou.
…E parecendo que não, agarra menos que o Prozac.